Livro de Urantia

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Capítulo 4
Post-scriptum


Eu e Tu
Martin Buber
Re-editado à partir da tradução do original
Post-scriptum
    4.1  Notas do tradutor
    4.2  Glossário

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     Quando, (há mais de 40 anos), eu esbocei pela primeira vez este livro, o que me impeliu a fazê-lo foi uma necessidade interior. Uma visão que, desde minha juventude, aparecia sem cessar, para logo em seguida se esvaecer, atingiria uma claridade constante que possuia, tão evidentemente, um caráter suprapessoal, que eu compreendi imediatamente que meu dever era ser seu testemunho. No entanto, logo após ter-me convencido da dignidade de, pelo meu serviço, tomar a palavra e de ter sentido no direito de dar a este livro sua forma definitiva, constatei que deveria ser completado em vários pontos, independente do texto já formulado1. Assim, apareceram alguns escritos menores2 cuja finalidade era, quer esclarecer melhor aquela visão, por meio de exemplos, quer explicá-la, para que objeções pudessem ser refutadas, ou ainda de criticar certas concepções que, embora tenham trazido importantes esclarecimentos, não conseguiram apreender o sentido central daquilo que era mais essencial para mim, a saber, os vínculos íntimo entre a relação com Deus e a relação com o homem. Mais tarde, melhores esclarecimentos foram acrescentados, uns, relativos aos fundamentos antropológicos3, outros, relativos às implicações sociológicas4. Verificou-se, todavia, que isso ainda não esclarecia tudo de um modo suficiente. Os leitores incessantemente dirigiam-se a mim para perguntar sobre o sentido de tal passagem ou de tal outra. Durante muito tempo eu respondi a cada um deles, mas logo notei que não poderia atender todas as exigências e ademais, não devo limitar as relações dialógicas àqueles leitores que se decidiram a falar. Talvez haja, justamente dentre os silenciosos, aqueles que merecem uma atenção especial. Assim resolvi responder publicamente, primeiramente a algumas questões essenciais que se relacionam em certo sentido.

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     Eis, como poderia ser formulada, com alguma precisão, a primeira questão: se, como diz esta obra, nós podemos nos encontrar em relação Eu-Tu não somente com outros homens, mas também com os entes ou coisas que, na natureza, vêm ao nosso encontro, em que se fundamenta a diferença entre aqueles e estas? Ou então, de um modo mais preciso: se esta relação implica uma reciprocidade abrangendo efetivamente os dois parceiros, o Eu e o Tu, como pode a relação com aquilo, que é simples natureza, ser entendida como uma relação deste tipo? Ou mais exatamente: se devemos admitir que seres ou coisas da natureza nos quais encontramos nosso Tu, nos concedem uma certa espécie de reciprocidade, de que espécie é esta reciprocidade e o que nos permite atribuir este conceito tão fundamental?

     A esta questão não existe, aparentemente, uma resposta uniforme. Aqui em vez de tomar a natureza como um todo, como de hábito se faz, devemos considerar seus diversos domínios. O homem outrora, "domou" os animais e é ainda capaz de exercer este singular poder. Ele os atrai em sua atmosfera e os leva a aceitá-lo, ele, o estranho, de um modo elementar, a atendê-lo. Ele obtém da parte deles uma reação ativa e muitas vezes suprendente às suas solicitações e apelos, reação esta que é, geralmente, tanto mais intensa e direta quanto mais a sua posição, com relação a eles, é um dizer-Tu autêntico. Pois os animais, como as crianças sabem discernir se as manifestações de ternura são dissimuladas ou não, são autênticas ou não. Um contato semelhante se produz também, às vezes, entre o homem e o animal fora do âmbito da domesticação: aí trata-se de homens que trazem, no fundo do seu ser, a virtualidade de um contato com o animal não como se fossem, em certo sentido, pessoas "animais" mas antes, pessoas dotadas de uma espiritualidade elementar.

     O animal não é duplo, como o homem; a dualidade das "palavras-princípios" Eu-Tu e Eu-Isso lhe é estranha, embora ele possa muito bem dirigir sua atenção a um outro ser quanto contemplar objetos. Podemos sempre afirmar que, nesse caso, a dualidade é latente. Esta esfera considerada como dizer tu que emana de nós em direção à criatura, pode ser chamada limiar da mutualidade.

     O mesmo não se aplica aos domínios da natureza, aos quais falta a espontaneidade que temos em comum com o animal. A planta, como a concebemos, não pode reagir à nossa ação sobre ela, não pode "retribuir". Isto não significa, no entanto, que não participamos de nenhuma espécie de reciprocidade. Embora não exista aí ação ou atitude de um indivíduo, existe, sem dúvida, uma reciprocidade do próprio ser, uma reciprocidade que não é senão o Ser. Aquela totalidade viva e a unidade da árvore, que se recusam ao olhar mais perscrutador daquele que só se limita a explorar mas que se oferecem àquele que diz Tu, estão presentes quando o homem está presente; ele permite à árvore manifestá-las e, pelo fato de ser, a árvore as manifesta. Nossos hábitos de pensamento nos dificultam reconhecer que, aqui, algo suscitado pela nossa atitude, algo que vem do Ser, se desperta e brilha diante de nós. Nesta esfera, o essencial é nos entregar livremente à atualidade que se nos oferece. A esta vasta esfera que se estende das pedras às estrelas, atribuo o nome de pré-limiar, isto é, último grau antes do limiar.

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     Mas, então, apresenta-se a questão sobre a esfera que poderia ser chamada, para empregar a mesma imagem, a esfera do "supra-limiar", aquela além da porta, a esfera que cobre a porta: a esfera do espírito. Aqui, também se faz necessária a distinção entre dois setores: entretanto a divisão aqui operada, é mais profunda que aquela no seio da natureza. Ela é a separação entre aquilo que, de um lado, no que se refere ao espírito, já se manifestou no mundo e tornou-se perceptível aos nossos sentidos, e, de outro lado, aquilo que ainda não se incorporou no mundo, mas que, no entanto, está pronto a se encarnar tornando-se presença para nós. Esta distinção é fundamentada no fato de eu poder, por assim dizer, te mostrar, meu leitor, aquilo que de espiritual já foi realizado, sem no entanto, poder mostrar-te a outra. Posso chamar tua atenção sobre as obras do espírito que existem efetivamente, ou sobre uma coisa ou ser da natureza que existem atualmente e também sobre algo que te é atual ou virtualmente acessível. Não é possível, no entanto, indicar-te algo que ainda não se incorporou no mundo. Quando ainda me perguntam, onde, no âmbito desta região, se encontra a mutualidade, não posso senão fazer indiretamente alusão a determinados fenômenos, impossíveis de serem descritos, na vida do homem, ao qual o Espírito se revelou como encontro. E, finalmente, se o modo indireto se revela insuficiente, nada me resta senão apelar, meu leitor, para o testemunho de teus próprios segredos, que embora estejam, quem sabe, soterrados, podem ainda ser atingidos.

     Voltemos, então à primeira região, aquela denominada dos "entes à mão" pois, aqui, podemos tomar apoio sobre exemplos.

     Aquele que questiona torna presente a si mesmo uma das sentenças de um mestre morto há milhares de anos e tenta acolher esta sentença, na medida do possível, pelo sentido do ouvido, como se o Mestre estivesse presente pronunciando-a pessoalmente. Para tanto, deve voltar-se com todo o seu ser, para aquele que a profere e que não existe, isto é, a atitude que deve tomar para com este homem, ao mesmo tempo vivo e morto, deve ser aquela que eu chamo o dizer-Tu. Caso consiga (a vontade e o esforço, na verdade, não bastam, mas pode retomar sem cessar, a tarefa), perceberá, de início talvez indistintamente, uma voz idêntica àquelas cujo som encontraremos em outras dentre as sentenças do Mestre. Agora, não poderá mais realizar aquilo que poderia, enquanto considerar a sentença como um objeto; não poderá isolar nem seu conteúdo nem seu ritmo; não acolherá senão a totalidade indivisível de uma fala.1

     Porém, isto é ainda ligado a uma pessoa, à manifestação em cada caso, da pessoa em sua palavra. Ora, o que quero dizer não se limita a uma contínua presença de uma existência pessoal em palavras. Para isso, deverei apelar agora para um exemplo que não esteja afetado de nenhum elemento pessoal. Escolho um exemplo, que evocará, em muitos de nós, intensas lembranças. Trata-se da coluna dórica, onde ela se revela a um homem capaz de se entregar à sua contemplação e disposto a dedicar-se a isto. A mim ela se apresentou pela primeira vez em Siracusa, em um muro de uma Igreja, onde, outrora, fora incrustrada. Misteriosa medida originária revelando-se de um modo tão sóbrio e tão desprendido, que nela não havia sequer detalhes a serem considerados ou objeto de prazer. Eu era capaz de realizar aquilo que deveria ser feito, a saber, tomar posição e manter esta atitude em face da forma espiritual, desta realidade que, passada pelo sentido e pelas mãos do homem, encarnou-se graças a eles. O conceito de mutualidade desaparece aqui? Ou ele mergulha novamente nas trevas, ou então ele se transforma em um estado concreto de coisas, um estado que recusa terminantemente a conceitualização, mas que é claro e autêntico.

     Nesta perspectiva, poderemos também considerar a outra região, aquela daquilo que "não está à mão", aquela do contato com os "seres espirituais", a da origem da palavra e da Forma.

     Espírito tornado verbo, espírito tornado forma. Aquele que foi tocado pelo espírito e não se impermeabiliza à sua presença, sabe, em um ou outro grau sobre o fato fundamental. Tais coisas não germinam e não se desenvolvem no mundo dos homens sem serem semeadas; sabe que elas nascem do encontro do Homem com o Outro. Não de encontro com idéias platônicas (que, aliás, não tenho conhecimento direto e nas quais não posso ver o ser) mas encontro com o Espírito, que nos envolve e que penetra em nós. Aqui, mais uma vez, lembro-me da estranha confissão de Nietzche, abordando o fenômeno da "inspiração", aconselhando que se receba sem perguntar quem oferece. Certo, não se perguntará, mas nem por isso não se deixa de agradecer.

     Peca aquele que tenta apoderar-se do espírito quando conhece o seu sopro, ou que tenta descobrir sua natureza. Porém, é uma infidelidade para com ele atribuir-se a si este

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     Reconsideremos conjuntamente o que foi dito a respeito dos encontros com o elemento natural e daqueles com o elemento espiritual.

     Temos o direito - poder-se-ia perguntar - de falar de "resposta" ou de "apelo" provenientes de uma ordem exterior àquela para a qual, em nossas considerações sobre a ordem dos seres, reconhecemos espontaneidade e consciência, como se algo ocorresse do mesmo modo sob forma de resposta e apelo no mundo humano no qual vivemos? O que aqui se disse sobre isso, teria outro valor do que uma metáfora de "personificação"? Não haveria aqui o perigo de um "misticismo" problemático, que apaga os limites determinados, que são necessariamente traçados por todo conhecimento racional?

     A estrutura clara e sólida da relação Eu-Tu, familiar a todo aquele de coração aberto e que possui coragem para aí se engajar, não é de natureza mística. Para compreendê-la, devemos, às vezes, nos desligar de nossos hábitos de pensamentos, sem, no entanto, renunciar às normas originais que determinaram o modo próprio de o homem pensar aquilo que é atual. Como no reino da natureza, do mesmo modo, a ação que se exerce sobre nós no reino do espírito - do espírito que se prolonga na mensagem e na obra, do espírito que aspira tornar-se mensagem e obra - deve ser compreendida como uma ação que provém do Ser.

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     Na questão seguinte não se trata mais de limiar, pré-limiar ou supra-limiar da mutualidade, mas da própria mutualidade como porta de entrada de nossa existência.

     Pergunta-se: o que se passa na relação entre os homens? Realiza-se sempre numa reciprocidade total? Pode ela, deve ela sempre realizar-se assim? Não depende ela, como aliás, tudo o que é humano, das limitações de nossa deficiência e não está submissa às restrições das leis internas de nossa existência com o outro?

     O primeiro destes dois obstáculos é bem conhecido. Desde o próprio olhar com que vês cada dia o teu "próximo" que te admira com olhos espantados como se fosses um estranho, ele que, no entanto, carece de ti, até a tristeza dos santos, que não cessam de apresentar a grande oferenda - tudo te diz que a plena mutualidade não é inerente à existência em comum entre os homens. Ela é um dom ao qual deve-se estar sempre receptivo e que nunca se tem como algo assegurado.

     Há, no entanto, diversas relações Eu-Tu que, por sua própria natureza, não podem realizar-se na plena mutualidade, se ela deve conservar a sua característica própria.

     Uma relação deste gênero, eu caracterizei, em outro lugar5, como a relação do autêntico educador ao seu discípulo. Para auxiliar a realização das melhores possibilidades existenciais do aluno, o professor deve apreendê-lo como esta pessoa bem determinada em sua potencialidade e atualidade, mais explicitamente, ele não deve ver nele uma simples soma de qualidades, tendências e obstáculos, ele deve compreendê-lo como uma totalidade e afirmá-lo nesta sua totalidade. Isto só se lhe toma possível, no entanto, na medida em que ele o encontra, cada vez, como seu parceiro em uma situação bipolar. E, para que sua influência sobre ele tenha unidade e sentido, ele deve experienciar esta situação, a cada manifestação e em todos os seus momentos, não só de seu lado, mas também do lado de seu parceiro; ele deve exercitar o tipo de realização que eu chamo envolvimento. Entretanto, se acontecer com isso, de ele despertar também no discípulo a relação Eu-Tu, de tal modo que este o apreenda e o confirme igualmente como esta pessoa determinada, a relação específica educativa poderia não ter consistência se o discípulo, de sua parte, experimentasse o envolvimento, isto é, se ele experienciasse na situação comum, a parte própria do educador. Do fato de a relação Eu-Tu terminar ou de ela tomar um caráter totalmente diferente de uma amizade, fica clara uma coisa: a mutualidade não pode ser plenamente atingida na relação educativa como tal.

     Outro exemplo, não menos instrutivo para as restrições da mutualidade, encontramos na relação entre o autêntico psicoterapeuta e seu paciente. Se ele se limita em "analisá-lo", isto é, em trazer à luz de seu microcosmos fatores inconscientes, e através desta libertação, aplicar as energias transformadas a atividades conscientes da vida, ele pode trazer algumas melhoras. Na melhor das hipóteses, ele pode auxiliar uma alma difusa e estruturalmente pobre a, de algum modo, se concentrar e se ordenar. Porém, aquilo que lhe incumbe, em última análise, a saber, a regeneração de um centro atrofiado da pessoa, não será realizado, Só poderá realizar isso quem, com um grande olhar de médico, apreender a unidade latente e soterrada da alma sofredora, o que só será conseguido através da atitude interpessoal de parceiros e não através da consideração e estudo de um objeto. Para o terapeuta favorecer de um modo coerente a libertação e a atualização daquela unidade, em uma nova harmonia da pessoa com o mundo, ele deve estar, assim como o educador, não somente aqui no seu polo da relação bipolar, mas também no outro polo, com todo o seu poder de presentificação e experienciar o efeito de sua própria ação. Porém, de novo, a relação específica de "cura" terminaria no momento em que o paciente lembrasse e conseguisse praticar, de sua parte, o envolvimento experienciando assim o evento no lado do médico. O curar como o educar não é possível, senão àquele que vive no face-a-face, sem contudo deixar-se absorver.

     A limitação normativa da mutualidade seria demonstrada de um modo mais claro, sem dúvida, no exemplo, do orientador de consciência, pois aí, um envolvimento por parte de seu parceiro violaria a autenticidade sacral de sua missão.

     Todo vínculo Eu-Tu, no seio de uma relação, que se especifica como uma ação com finalidade exercida por um lado sobre o outro, existe em virtude de uma mutualidade que não pode tornar-se total.

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     Com referência a isso, só mais uma questão pode ser abordada; é necessário que assim seja pois ela é, incomparavelmente, a mais importante. Perguntar-se-ia: como pode o Tu eterno ser, na relação, ao mesmo tempo exclusivo e inclusivo? Como o encontro Eu-Tu do homem com Deus, encontro que exige um movimento absoluto em direção a Ele e do qual nada pode desviar, pode englobar todas as outras relações Eu-Tu deste homem e oferecê-las a Ele?

     Note-se bem, a questão não se aplica a Deus, mas unicamente à nossa relação com Ele. Eu devo, no entanto, para responder, falar dele. Na verdade nossa relação com Ele transcende, como tal, todas as oposições, porque ele, como tal, as transcende.

     Sem dúvida, podemos somente falar sobre o que Deus é em sua relação com o homem. E, mais, isso só poderia ser dito de um modo paradoxal; ou mais exatamente, por um emprego paradoxal de um conceito; ainda mais claramente, pela ligação paradoxal entre um conceito nominal e um "adjectum" que se contradiz com o conteúdo que usualmente lhe atribuímos. Esta contradição se justifica na medida em que se reconhece que é indispensável de signar o objeto por esta noção e que a designação só pode ser justificada assim e não de outro modo. O conteúdo do conceito sofre uma extensão transformadora - o mesmo acontece, porém, com cada conceito que nós, impelidos por realidade de fé, tomamos à imanência e aplicamos à ação da transcendência.

     A relação com Deus como pessoa2 é indispensável para quem, como eu, não entende por "Deus" um princípio, embora místicos como mestre Eckart, às vezes assemelham-no ao Ser; para aquele que, como eu, não identifica "Deus" com uma idéia, embora filósofos como Platão, possam, às vezes, tê-lo concebido como tal; para quem, sobretudo, como eu, entende por "Deus" - não importa o que seja além disso - aquele que entra numa relação imediata conosco homens, através de atos criadores, reveladores e libertadores3 possibilitando-nos, com isso, a entrar em uma relação imediata com Ele. Este fundamento e este sentido de nossa existência constituem, a cada vez, uma mutualidade que só pode existir entre pessoas. Embora o conceito de personalidade seja, sem dúvida, incapaz de definir a essência de Deus, é possível e necessário, no entanto, dizer que ele é também uma Pessoa. Se eu quisesse traduzir o que se deve entender com isso, excepcionalmente, em uma linguagem filosófica, a de Spinoza, por exemplo, deveria dizer que, dos inumeráveis atributos de Deus, não só dois, como entende Spinoza, mas três nos são para nós homens, conhecidos: a espiritualidade, da qual tem origem o que chamamos Espírito; a naturalidade - que consiste no que chamamos natureza - e, em terceiro lugar, o atributo da personalidade. Dela, deste atributo, nasce o meu ser-pessoal, e o ser-pessoal de todos os homens, assim como daqueles outros atributos originam, tanto o meu ser-espiritual como meu ser-natural e o de todos os homens. E, somente este terceiro atributo da personalidade se nos revela diretamente em sua qualidade de atributo.

     Porém, agora no que diz respeito ao conteúdo universalmente conhecido do conceito de Pessoa, se anuncia a contradição. Não pertence à essência da pessoa o fato de sua individualidade, embora existindo em si, ser relativizada na totalidade do Ser pela pluralidade de outras individualidades? Mas, evidentemente, isso não se aplicaria a Deus. A esta contradição contrapõe-se a designação paradoxal de Deus como pessoa absoluta, isto é, uma pessoa não passível de relativização. Deus entra na relação imediata conosco como pessoa absoluta. A contradição desaparece em um nível superior de consideração.

     Deus - podemos agora afirmar - transmite sua absoluticidade à relação que Ele estabelece com o homem. O homem que se dirige a Ele não tem necessidade de se afastar de nenhuma outra relação Eu-Tu; ele as conduz legitimamente a Ele e as deixa que se transfigurem na "face de Deus".

     Todavia, deve-se, acima de tudo, evitar interpretar o diálogo com Deus, o diálogo, sobre o qual eu falei neste livro e em quase todos que o seguiram, como algo que ocorresse simplesmente à parte ou acima do quotidiano. A palavra de Deus aos homens penetra todo evento da vida de cada um de nós, assim como cada evento do mundo que nos envolve, tudo o que é biográfico e tudo o que é histórico, transformando-o para você e para mim, em mensagem e exigência. A palavra pessoal torna capaz e exige, evento após evento, situação após situação, da pessoa humana firmeza e decisão. Acreditamos muitas vezes, que nada há a perceber, mas obstruímos há muito tempo, nossos ouvidos.

     A existência da mutualidade entre Deus e o homem é indemonstrável, do mesmo modo que a existência de Deus é indemonstrável. Porém, aquele que tenta falar dEle dá seu testemunho e invoca o testemunho daquele a quem Ele fala, seja um testemunho presente ou futuro.

     Jerusalém, outubro, 1957.

4.1  Notas do tradutor

     NOTAS DA PRIMEIRA PARTE

     1 - WESEN. A tradução mais correta é essência. Mestre Eckart foi o primeiro a introduzir este conceito na filosofia alemã para traduzir essência. Trata-se de um termo que Buber emprega muito freqüentemente atribuindo-lhe um sentido profundo. Nem sempre achamos um termo para traduzir, para exaurir toda a riqueza de sentido atribuído em cada passagem. As vezes Buber empregou o substantivo Wesenheit, forma rara em alemão. Geralmente Wesen significa para Buber, em EU E TU , ser, natureza. Raramente lemos essência. Porém, acreditamos que o sentido mais rico tenha algo a ver, em Buber, com o antigo alemão wesan sein. Por esta razão, em várias passagens preferimos traduzir wesen por ser presente, pois, sendo presença e presente conceitos centrais no pensamento de Buber, o ser no sentido mais profundo é o ser na relação que exige a totalidade de presença. O próprio parâmetro que Buber utiliza para estabelecer o maior ou menor valor para uma relação EU-TU, a reciprocidade, se baseia numa presença mais completa ou menos completa dos integrantes do evento da relação. Assim, nesta passagem: "A palavra-princípio EU-TU só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade" (mit dem ganzem Wesen). A vida de relação é para Buber a vida atual de presença. Então não é só enquanto ser que o homem se dispõe ao evento de relação mas como ser na sua totalidade de presença, como ser presente. Outras vezes, diante da dificuldade de traduzir toda a riqueza do pensamento de Buber conservamos o sentido mais comum "essência". Assim na passagem mais adiante: "Wesenheiten werden in der Gegenwart gelebt" (o que é essencial é vivido no presente) é uma frase um tanto desnorteante, pois, como é que seres, essências, serão vividos? Podem ser vividos? E mais, "Wesenheiten" no plural é mais raro ainda. Denota algo abstrato e geral. Mesmo que tivéssemos encontrado erlebt (vivenciar, experienciar) em vez de gelebt, não deixaria de ser um tanto embaraçante, pois "erleben" e "Erlebnis" ainda se aproximam do contexto da Erfharung, experiência própria do mundo do ISSO. Optamos pela tradução "o essencial", pois é abstrato e geral como quis Buber e se aproxima de sua intenção principal que é vida de relação com a vida essencial, a vida de - presença, presente aqui e agora. Aquele que está presente em um evento de relação dialógica é essencial, pois proferiu a palavra-princípio com todo o seu ser. Isto se torna menos embaraçante com a segunda parte da frase na passagem citada: "Gegenstaendlichkeiten in der Vergangenheit" (as objetividades no passado). O objeto (Gegenstand) já está cristalizado no mundo do ISSO. Gegenstand não pode ser "wesen" para empregarmos uma linguagem bem simples, pois carece de "presença", pelo menos enquanto objeto. Ora, se não podemos afirmar, a rigor, que um objeto não tem essência, pelo menos, podemos dizer que ele não é um "ser presente", pois, como dissemos, ele carece de presença.

     2 - ERFAHREN. O substantivo é Erfahrung. No mesmo parágrafo Buber emprega também o verbo "befahren" cuja tradução literal poderia ser "caminhar na superfície". Ambos se relacionam com "fahren" andar, viajar. Traduzimos befahren por "explorar a superfície", pois cremos ser a intenção de Buber indicar que a experiência é uma ida intencional que permanece na superfície das coisas.

     3 - ER LEIBT MIR GEGENUEBER. "Leib" significa corpo; o verbo leiben poderia ser traduzido por encorporar. No texto Buber distingue Leib e Koerper. Leib é o corpo humano na sua manifestação concreta existencial como corpo vivido. Poderíamos associar esta distinção àquela que fez Scheler entre corpo percebido que ele chama Koerper e corpo experienciado que ele chama Leib. Esta mesma distinção é operada por Biswanger. Gegenueber é um termo abundantemente utilizado por Buber. Gegenueber parece ter sido forjado para traduzir o "vis-à-vis" francês. Às vezes Buber o emprega como substantivo. Neste caso optamos pelo termo parceiro. Em outras passagens traduzimos por face-a-face e confronto. Na presente frase optamos por uma tradução que se aproxima a nosso ver do sentido que Buber quis exprimir. Em pessoa é uma expressão talvez imprópria em se tratando de uma árvore. Mas quer significar que não se trata apenas de uma massa inerte e compacta que se posta simplesmente diante do homem, mas é a árvore que pode integrar o evento de relação e portanto ser um TU para o homem num momento de verdadeira presença.

     4 - WIRKLICHKEIT, wirklich, verwirklichen, entwirklichen são termos freqüentemente utilizados por Buber. Ele os associa de um modo bastante nítido e praticamente em todas as passagens onde aparece o termo, com wirken at-uar e Werk obra. Numa tentativa de permanecer o mais fiel possível ao contexto de EU E TU, optamos por uma tradução que nos parece ser mais próxima ao sentido que Buber lhe deu, a saber, atualidade para Wirklichkeit, atual para unrklich e atuar para wirken. Além disso podemos associá-los à presença e presente no sentido buberiano. De fato, mais adiante Buber irá afirmar que "Toda vida atual é encontro". A autenticidade da vida enquanto atual é ser vida de encontro (Begegnung), assim como a autenticidade do encontro só é atingida num a vida de atualidade, de presença efetiva, atuante, visto que o autêntico encontro implica uma "presentificação" (Vergegenwaertigung) mútua, do EU e do TU e uma Wechsehmrkung uma ação mútua, uma atuação recíproca. Deixamos o termo realidade e real quando Buber emprega especificamente Realitaet e real.

     5 - GEGENWAERTIGE. Gegenwart significa presença e presente. É um dos termos chaves em EU E TU. Presente como oposto ao passado e ao futuro e presente como "em presença de"*. O presente como momento presente transcende de algum modo o puro instante unidimensional na intersecção de duas facções do tempo. O presente em Buber evoca-nos o "instante" kierkegaardiano que é decisivo e pleno de eternidade; ele é a plenitude dos tempos. Na primeira Parte de EU E TU Buber emprega o substantivo abstrato Gegenwaertigkeit que pode ser traduzido por presentidade.

     6 - LIEBE IST EIN WELTHAFTES WIRKEN. Haft é um sufixo utilizado para adjetivos e haftigkeit para substantivos. Pode significar propriedade ou o fato de ter como também a expressão "algo como". Buber o emprega mais neste segundo sentido como que dando a entender que os conceitos são incapazes de atingir o rigor de sentido de uma idéia, Welthaft é uma delas. Inúmeras são as palavras que Buber forjou com os sufixos haft e haftigkeit.

     7 - MANA. Há vários sentidos para a palavra Mana. Oscila entre uma noção de força impessoal universal e uma personalidade de caráter sacro ou divino. Para os Algonquinos (índios do Canadá) o Mana recebe o nome de "manitu" ; para os Iroqueses, o nome de "orenda" e "brahman" para os povos da Índia antiga. O Mana é o aspecto positivo do oculto enquanto que o "tabu" é o aspecto negativo. O oculto como Mana é carregado de um poder milagroso. O termo exprime a idéia religiosa elementar de força sacral (impropriamente de fluído) independente das concepções e crenças animísticas, como a forma mais simples de religiosidade. Codrington na sua obra "The Melanesians" afirma que o Mana é uma força, uma influência de ordem imaterial e, em certo sentido, sobrenatural, que se revela, no entanto, por uma força física, ou por um poder de superioridade que o homem possui. Os primitivos, desconhecendo as causas físicas e naturais dos fenômenos da natureza, visto que seus conhecimentos não atingiram o estágio capaz de conceber uma causa geral capaz de produzir algo do nada, recorrem à hipótese de um conceito dinâmico que é o Mana. Não é fácil de se definir com precisão o que é o Mana, pois é de natureza material e ao mesmo tempo invisível e intocável; sem ser espiritual participa da natureza espiritual. É uma espécie de fluído material desprovido de inteligência pessoal mas capaz de receber e repercutir a impressão de todas as idéias e de todos os espíritos (Saintyves - La Force Magique: du mana des primitifs au dynamisme scientifique, págs. 20-22. Paris, 1914).

     8 - Em latim no original.

     9 - ICH-WIRKEND-DU UND DU-WIRKEND-ICH.

     10 - ICHHAFTXGKEIT.

     11 - VERBUNDENHEIT. Trata-se de um termo utilizado por Buber nas três partes do livro. Ê pouco comum na linguagem corrente. É de difícil tradução. De um certo modo Buber nos fornece um paradigma nesta passagem. Optamos pelo termo vínculo. Trata-se de uma determinada relação entre dois seres que não é mera justaposição, nem relação causal, nem conexão; o termo associação se aproxima, mas ainda não atinge o grau de intimidade que é verificado na "Verbundenheit" como a emprega Buber. Associação, além disso, se aproxima de "socius" e este ainda não é o "próximo" numa proximidade de presença. Vínculo denota uma relação íntima entre dois seres.

     12 - DER ZUM LEIB REIFENDE KOERPER. Ver nota 6 desta parte.

*

     NOTAS DA SEGUNDA PARTE

     1 - GEIST. Espírito. Espírito evoca-nos aqui o sentido atribuído ao conceito no contexto bíblico. Para Buber, a Bíblia (por ele traduzida com a colaboração de F. Rosenzweig) deve apresentar ao homem contemporâneo uma direção em sua vida concreta. Esta posição exigiu de Buber uma atitude hermenêutica em sua tradução que tentava redescobrir o sentido original dos termos (Grundschrift). Embora admitisse que o resultado deste trabalho hermenêutico de decifrar a própria palavra por uma nova leitura (Buber chamava o texto de palimpsesto) pudesse aparecer paradoxal e, até mesmo, vexatório para o homem moderno. Ele afirmava também que, o paradoxo e o vexame podem conduzir à instrução. O texto bíblico estabelece uma relação entre espírito e vida. "Ruah" significa espírito e vento. Lemos no Gênese 1:2 "o espírito de Deus pairava sobre as águas". Deus não se restringe a um reino natural ou espiritual mas é origem dos dois. O espírito, "RUAH", se relaciona à vida e não ao intelecto. "Ruah" significa sopro, o sopro do céu sob a forma de vento e o sopro sob forma de espírito. Para o primitivo, os dois sentidos são inseparáveis pois ele sente e interpreta o entusiasmo que se apodera dele, a ação irresistível do espírito nele como o vento da tempestade se apodera de tudo. O espírito, "RUAH", não está sobre Moisés pois a Voz estabeleceu com ele uma conversa de pessoa à pessoa. Moisés é o depositário do espírito que nada mais é do que o fato de ser admitido em uma relação dialógica com a divindade. E curioso notar, como nos lembra Buber, a diferença de interlocução que se estabelece entre Moisés e Deus de um lado, e Deus e os Profetas, de outro lado. Enquanto Deus se faz conhecer aos profetas "em visão", a Moisés Ele se manifesta visualmente e não em enigmas. Os profetas têm visões que devem ser primeiramente decifradas, enquanto que, para Moisés, é na realidade visual que a vontade de Deus se mostra. Aos primeiros Deus fala "em sonho", para Moisés Ele fala "boca-a-boca" e Moisés lhe responde. Este contato exprime, como diz Buber, uma comunicação que é ainda mais íntima que o "face-a-face" (Exodo 33:11). E m uma emissão do sopro, do hálito, a Palavra é soprada por Deus e inspirada pelo homem. (Ver M. Buber - Die Schrift und ihre Verdeutschung, 167).

     Em EU E TU vemos vislumbrar também este sentido do espírito como força geradora do diá-logo, a palavra entre os dois estabelecendo o inter-valo entre o Eu e o Tu na intimidade e na presença do evento do face-a-face. Buber afirma que o espírito é a resposta do homem a seu Tu. A resposta instaura o diálogo, a inter-ação onde o EU confirma o TU em seu ser e é por ele confirmado. O EU exerce uma ação, atua sobre o TU e este atua sobre o EU. Neste encontro se estabelece a alteridade na medida em que existe uma alter-ação mútua. Podemos, então, relacionar aqui o sentido que é dado na interpretação buberiana à Palavra divina, ao Espírito em sua manifestação divina. A palavra é, em sua essência divina, um poder que age sobre o homem a quem ela é dirigida, e, ao mesmo tempo, uma ação do homem sobre ela embora uma ação de caráter diferente, tributária da condição própria do homem.

     2 - STATT IHM ZUZUBLICKEN, BEOBACHTET. Zublicken é um verbo pouco comum. Compreende-se mais facilmente zuhoeren - ouvir, escutar. Preferimos então, procurando uma maior fidelidade ao contexto de todo o livro, traduzir zublicken por contemplar em oposição a observar - beobachten. A observação implica um objeto observado enquanto que contemplação é mais uma resposta ao TU no evento da relação.

     3 - "GOLEM" é uma palavra que aparece uma só vez na Bíblia no salmo 139:16. Significa aí "sem forma". A literatura hebraica da Idade Média empregava-a para designar a matéria sem forma. Buber explica que Golem é um pedaço de argila animado sem alma. Poderíamos traduzi-lo por autômato. Achamos interessante retomar a forma tardia da lenda como Jacob Grimm expôs em seu "Diário para Eremitas" de 1808: "Os judeus poloneses fabricam, depois de certas orações e dias de jejum, a forma de um homem em argila. Se eles pronunciam sobre ele o "Scheruhamphoras" miraculoso (o nome de Deus) este homem deve tornar-se vivo. Embora não possa falar, ele pode, no entanto, compreender suficientemente o que se lhe diz ou ordena. Eles o denominavam "Golem" e o utilizavam como empregado para executar trabalhes domésticos. Ele não deve jamais sair de casa. Em sua fronte está escrito em eth (verdade). Ele cresce cada dia e ponto de se tornar facilmente maior que todos que vivem em casa mesmo que tenha sido fabricado bem pequenino. Os que vivem na casa, com medo deste Golem, apagam então a primeira letra do nome para que ele se torne meth (está morto). E assim ele cai, se desmorona e se transforma novamente em argila. Um homem havia deixado, por descuido, crescer demasiadamente o seu "Golem". Tão grande estava que já não era mais "possível alcançar a sua fronte. Então, tomado pelo medo, ele ordenou a seu servo que lhe tirasse as botas, para que quando o Golem estivesse abaixado, pudesse atingir sua fronte. Tendo conseguido, retirou a primeira letra, mas todo aquele peso de argila caiu sobre ele e o matou". (Cfr. Beate Rosenfeld, Die Golemsage und ihre Verwertung ind der deutschen Literatur. Breslau 1934. Citado por Scholem, G. G. - La Kabbale pág 180).

     4 - SEELENVOGEL. Trata-se de um a noção mítica da alma que se incorpora em animais ou aves. Segundo uma crença dos povos primitivos, a alma de um homem após a morte, sobrevive em um animal, um réptil ou uma ave (Seelenvogel). Esta crença se baseia na crença da migração das almas. Esta idéia primitiva da passagem da alma ou da essência vital para uma forma particular se fundamenta na concepção de uma alma objetiva ou de uma pluralidade de almas em um indivíduo particular. Há então a possibilidade de uma destas almas se separar para poder sair através da boca. A alma deve ser pequena para que possa passar pela boca. Diz-se assim que a alma voa, sendo representada por aves ou insetos voadores. Para os Bororos a alma se encarna numa arara. Na dificuldade de encontrarmos um termo exato optamos pela expressão, sem dúvida imprópria de "alma-pássaro".

     5 - HEIMARMENE . Termo grego utilizado por Platão no Fédon 115a e no Gorgias 512e, cuja tradução é "destino".

     6 - KARMAN. Ê um conceito sânscrito utilizado na religião Hindu e no Budismo, que pode ser traduzido por ação. "O Karman" é a força gerada pelas ações de uma pessoa. O destino do homem após a morte depende de sua existência atual ou das anteriores.

     7 - ABLAUF.

     8 - UMKHER. Buber quer traduzir o termo TESHUVAH hebraico. Ao traduzirmos Umkher por "conversão"* tentamos nos aproximar o máximo possível do clima do pensamento buberiano. A "Umkher" é no sentido profundo do termo uma conversão e não a "metanoia", a volta como foi proposta por Platão aos homens na metáfora da caverna. A conversão engaja o homem na total concretude de sua existência. Note-se a ênfase dada por Buber a "Umkher" pois a repete 4 vezes na frase seguinte. Naturalmente Buber se coloca na tradição judaica quando acentua fortemente a imediatez da relação dialógica com Deus. Há uma diferença clara entre a doutrina cristã da conversão que é um a adesão ao Cristo e a doutrina judaica para a qual o homem pode converter-se a qualquer momento e ser aceito por Deus, sem necessidade de mediação.

     9 - OPFER. A Tradução do termo alemão Opfer por sacrifício não exprime toda a riqueza do hebraico Qorban. Cremos poder relacionar o termo empregado por Buber em EU E TU a saber Opfer com a tradução que ele utilizou em uma passagem bíblica - Darnahung - pois este evoca melhor a riqueza do sentido da raiz hebraica qarab, "estar próximo" no sentido de "aproximar". Na verdade, este conceito implica a existência de dois seres. Um deles, tentando diminuir a distância que os separa, se aproxima (qarab) através de um qorban. Diante da dificuldade de encontrarmos um termo com a mesma riqueza de sentido, preferimos o termo oferta com a conotação de presente que se oferece a alguém. A oferta - qorban - é aquilo que me proporciona a proximidade na presença. O homem oferece seu presente, sua oferta para poder aproximar-se da presença de Deus. Podemos notar também, que em outro contexto Buber escolheu para a tradução de todas as formas derivadas da raiz - ya'ad - formas correspondentes do gegenwaertigsein. Fiel ao sentido rico do ya'ad, Buber traduz a tenda na qual Deus se faz presença, se faz presente, por "Zelt der Gegenwart". Em sua obra "Koenigtum Gottes" (O reino de Deus) Buber fala da "das Zelt der goettlichen Begegnung oder Gegenwaertigung" (tenda do encontro ou da presentificação de Deus). Assim cremos que o termo escolhido oferta no sentido de presente se aproxima da intenção manifestada no texto, isto é, de um encontro onde se quer estar na presença de Deus. A oferenda, aquilo que é oferecido, relembra a vontade constante de renovar sempre este "encontro".

     10 - EIGENWESEN. Literalmente poderia ser traduzido por ser próprio. Ê um termo inusitado, mesmo em alemão. Aliás Buber aprecia muito forjar palavras não se importando com o uso ou o sentido que possam ter na linguagem comum. Em uma carta ao tradutor da primeira edição inglesa de EU E TU Buber recusou o termo individualidade. Como Buber estabelece uma distinção entre Eigenwesen e Person, o tradutor recorreu aos conceitos já consagrados na linguagem filosófica de pessoa e indivíduo. No contexto Eigenwesen é o EU da palavra-princípio EU-ISSO enquanto que Person é o EU da palavra-princípio EU-TU. Eigenwesen se refere à relação homem com o seu "si-mesmo". Preferimos então a expressão ser egótico ou simplesmente o termo "egótico", embora se trate de um termo pouco comum. Mais adiante Buber utiliza o termo Eigenmensch que traduzimos por egotista.

     11 - SCHIBBOLETH. Marco Distintivo.

     12 - Valore no original.

     13 - DER ELEKTRISCHE SONNE. É uma expressão curiosa. Segundo Buber o homem do qual se fala aqui colocou no teto uma forte luz elétrica, como um pequeno sol que pode ser uma defesa contra os tormentos de um sonho em estado de vigília e também um símbolo para os pensamentos que ele invoca. Assim a Lâmpada elétrica seria o "sol elétrico" ou o "sol artificial da noite".

     NOTAS DA TERCEIRA PARTE

     1 - Evangelho de S. João 10:30.

     2 - Khandogya Upanishad III 14,4.

     3 - Afirmação de Mestre Eckart.

     4 - SCHIEDLICHKEIT.

     5 - IMMER-WIEDER - WERDEN-MUESSEN.

     6 - "GRANDE VEÍCULO". E a tradução do Mahayana. O Grande Veículo é um ramo do Budismo formado por várias seitas sincréticas que se encontram sobretudo no Tibet, no Nepal. China e Japão. Sua língua se baseia em cânones do sânscrito, acredita em um ou vários deuses; apregoa o ideal bodhisattva da compaixão e da salvação universal. Ao lado do "Grande Veículo" existe o "Pequeno Veículo", Hynayana, que é um ramo menor e mais conservador do Budismo dominante principalmente no Ceilão, Burma, Tailandia e Cambodja. Adota a escrita Pali, que é utilizada tanto como linguagem escolar como linguagem litúrgica.

     7 - REDLICHKEIT. Pode ser traduzido por honestidade, integridade. Possui a mesma raiz de reãen falar, Rede fala, discurso.

     8 - Referência a Nietsche, ECCE HOMO 3a parte onde discute o "Assim fala. Zaratustra".

     9 - Wir koennen nur gehen und bewaehren. Und auch dies "sollen" wir nicht - wir Icoennen - wir muessen.

     10 - Das Wort der Offenbarung ist: Ich bin da ais der ich da bin.

     Esta é a tradução de "EHYEH ASHEREHYEH", Cremos que se deve compreender a principal preocupação da interpretação buberiana da palavra da revelação como uma importância especial dada ao conceito de "presença". Deus assegura a Moisés que estará com ele. Por duas vezes Deus começa por EHYEH-eu serei presente. Não se deve perder de vista a questão central que é uma situação de diálogo. Aí não se trata do homem mas de Deus, do nome divino. Para o homem no estado de pensamento mágico, o nome verdadeiro de uma pessoa não é a simples denominação mas a essência mesma da pessoa, de certo modo destilada de sua realidade embora permaneça presente neste nome. A pessoa mesma é inacessível, oferece resistência. Porém através do nome ela se torna acessível. O nome verdadeiro, porém, pode ser diferente daquele que é geralmente conhecido. Este encobre, vela aquele. O nome verdadeiro pode diferenciar-se do nome comum pela pronúncia. A questão a respeito de seu nome, Deus responde a Moisés: Ehyeh asher Ehyeh. A tradução mais comum é: "Eu sou aquele que sou" significando com isso que EHYEH se designa como o existente, o eternamente existente, aquele que persiste imutavelmente em seu ser. Não se pode, entretanto, afirma Buber, tirar do verbo, na linguagem bíblica, o sentido da existência pura. Além disso esta interpretação deixa transparecer um tipo de abstração que normalmente não se manifestava em uma época de vitalidade religiosa em expansão. Buber o entende no seu sentido profundo de "ser presente". Ademais podemos perguntar: seria a intenção do narrador de mostrar que Deus, em um momento memorável em que anuncia a libertação de seu povo, desejava conservar e acentuar sua distância em vez de apresentar claramente sua proximidade, sua presença? Então, que força e sentido manifesta a clara intenção dos dois "EHYEH", como se lê em Exodo 3:12? "Eu serei, eu estarei presente" de modo absoluto e não como em outras passagens "Eu serei presente em tua boca", "Eu estarei junto de ti", "Eu não necessito ser invocado pois serei presente junto a vós" Por trás destas palavras, afirma Buber, percebe-se a resposta verdadeira endereçada aos adeptos da magia egípcia e àqueles que foram tocados pela técnica mágica: é inútil tentar invocar o nome de Deus. Com efeito no Egito os mágicos ameaçavam os deuses que não queriam cumprir suas ordens, suas vontades e acatar seus desejos, dizendo-lhes que atirariam seus nomes aos demônios e extrairiam suas bocas de suas cabeças. Se no Egito a religião nada mais era do que regras de magia, no diálogo da "Sarça ardente" a religião é desmagificada.

     Além disso o nome de Deus se transforma como afirma Buber: "Dentre todas as suposições relativas ao emprego do nome YHVH pelos Hebreus nas épocas que precedem sua história, uma somente permite tornar tudo isso inteligível, depois que pesquisas foram feitas na direção que ela indica, sem que permaneçam contradições. A meu conhecimento foi Bernard Dhum que a formulou há várias décadas, em um curso inédito da Universidade de Goettingen. Talvez este nome não seja senão um prolongamento de hu (ele) assim como outras tribos árabes chamavam Deus `o uno, o inefável"'. O grito, prossegue Buber, dos derviches: Ya-hu se traduz por "Oh! Ele". E em um dos hinos mais importantes de um místico persa Djelaleddin Rumi pode-se ler: "é o Uno que procuro, é o Uno que eu vejo, é o Uno que eu chamo. ELE o primeiro, ELE o Último, ELE é o exterior, ELE é o interior. Não conheço mais ninguém senão Yarhu (Oh! ELE) e Ya-man-hu (Oh! Ele que é)". A forma originária do grito pode ter sido Ya-huva, se for permitido ver no árabe huva a forma semítica primitiva do pronome "ele" que em hebraico se diz hu (Cfr. M. Buber MOISE (tradução francesa nas páginas 71 e 72). Então de uma vocalização, de uma exclamação pronunciada no êxtase, meia-interrogação, meio-pronome proveniente do fonema primitivo Ya-hu aparece uma forma verbal precisa, de acordo com regras gramaticais que, na terceira pessoa (havah é idênteo a hayah) significa a mesma coisa que EHYEH anuncia na primeira pessoa. "YHVH é aquele que será, que estará aí", isto é, aquele que estará presente não importa onde ou quando, mas a cada momento do presente e em cada lugar onde alguém estiver presente. Enquanto a exclamação primitiva saudava o Deus escondido, a forma verbal é sua manifestação. Assim lemos no Êxodo: 3:14: "EHYEH, `eu sou presente', `eu serei presente' me envia a vós" e logo depois: "YHVH o Deus de vossos pais me envia a vós". Podemos pois compreender como Buber entende a palavra da Revelação EHYEH ASHER EHYEH como "Ich bin da als der ich da bin". Acreditamos poder assim nos aproximar da riqueza de sentido que Buber tentou captar na palavra da Revelação traduzindo-a "Eu sou presente como aquele que sou presente".

     11 - Vemos aqui clara alusão aos fragmentos 8, 17 e 21 de Empédocles. No seu fragmento 8 Empédocles afirma: "Dir-te-ei ainda uma outra coisa: não há nascimento para nenhuma das coisas mortais; não há fim na morte funesta; há somente mistura e dissociação dos elementos compostos. Nascimento nada mais é que um nome dado pelos homens a este fato".

     NOTAS DO POST-SCRIFTUM

     1 - GESPROCHENHEIT. E um substantivo abstrato forjado por Buber que significa algo que é falado. Diante da dificuldade de tradução daquilo que exatamente quer dizer Buber, preferimos um termo que pode se aproximar do seu significado, fala. A fala como mensagem e como manifestação concreta desta mensagem através da palavra.

     2 - PESSOA. Não se trata de saber o que Deus é em si mesmo mas o que Ele é na relação com o homem. Deus não é pessoa em sua essência mas em sua relação com o homem. Buber escolhe um caminho radical para a compreensão do ser de Deus em termos de seu sentido para o homem, ao mesmo tempo que empreende uma compreensão do homem em termos de seu ser-com-Deus. Mais adiante Buber emprega o termo Personhaftigkeit, assim como Naturhaftigkeit e Geisthaftigkeit.

     3 - IN SCHAFFENDEN, OFFENBARENDEN , ERLOESENDEN AKTEN ...

     Criação, Revelação e Redenção. Estes três termos encerram o núcleo da interpretação buberiana da palavra de Deus que é o símbolo do encontro dialógico. Tudo na escritura é genuinamente fala (Gesprochenheit) afirma Buber em sua obra "Die Schrift und ihre Verdeutschung", pág. 56. A Bíblia é a incessante proclamação de uma mensagem (Botschaft) e a realidade desta proclamação é sempre assumida e está sempre presente. Os três pontos essenciais no diálogo entre a "terra e o céu" são a criação, a revelação e a redenção. A Bíblia encontra as gerações pela exigência de ser reconhecida como a verdadeira história do mundo, isto é, o fato de o mundo ter um começo e um fim. A criação é a origem e a redenção o fim. A revelação entretanto, não se apresenta como um ponto fixo, datado entre os dois. Mesmo a revelação no Sinai não é este ponto intermediário, mas antes uma contínua escuta e uma tomada de consciência no momento presente de sua atualização. O importante é a apropriação pelo homem do evento bíblico no momento, no instante presente, pois, para Buber, o encontro existencial é central e não está sujeito ao condicionamento histórico, é interessante relembrar, mesmo que rapidamente, uma faceta da mensagem hassídica sobre a redenção. O Hassidismo reage contra o modo messiânico de se distinguir um homem do outro, ou uma época de outras ou uma ação de outras. A força para cooperar na redenção foi atribuída a todos os homens indistintamente. É pela santificação sem preferência de tudo o que se faz, do ato de levar Deus ao longo da vida, a consagração de nosso vínculo com o mundo que pode realizar-se a redenção. Foi tal ensinamento de um vínculo inseparável entre o mundo e o homem que exerceu uma influência marcante sobre Buber a ponto de este afirmar que o destino inevitável do homem é amar o mundo, pois, não é em um pretenso "além" do mundo, mas no seu "interior" que o homem pode encontrar o divino.

4.2  Glossário

     Abhaengigkeit - sentimento de dependência

     Ablauf - decurso

     Angessicht - face, semblante

     Bezichung - relação

     Bewaerung - colocar à prova, comprovar

     Begegnung - encontro

     Bewusstheit - Estado de ser consciente ou de ter consciência

     Befahren - explorar a superfície

     Bestimmung - destino

     Besinnung - lembrança

     Dinghaftigkeit - coisidade

     Daszwischen - entre

     Erleben - vivenciar

     Erfahren - experienciar

     Erfahrung - conhecimento prático

     Erlebnis - experiência interior ou vivida, vivência

     Eigenmenschen - egotista

     Eigenwesen - ser egotico ou simplesmente egótico

     Gegenseitigkeit - reciprocidade

     Geist - espírito, ver nota

     Gegenwart - presença, presente

     Golem - autômato, pedaço de argila animado

     Gegenueber - face-a-face, parceiro

     Heilsleben - vida de salvação

     Ichhaftigkeit - egocentrieidade

     Ichbezogenheit - egoidade

     Koerper - corpo físico, corpo percebido

     Leib - corpo vivido

     Machtwille - vontade de poder

     Opfer - oferta

     Punkthaftigkeit - unidimensionalidade

     Realitact - realidade

real - real

     Redlichkeit - integridade

     Rede - fala

     Schauen - contemplar

     Scheinwelt - mundo de aparência

     Seelenvogel - "alma-pássaro". ver nota

     Umkehr - conversão

     Unterredung - conversação

     Umfassung - envolvimento

     Verhaeltnis - contato

     Verbundenheit - vínculo

     Verhaltenheit - retenção

     Vergegenwaertigen - presentificar

     Vergegenwaertigung - presentificação

     Verwirklichen - atualizar

     Vereinigung - unificação

     Verfremdung - alienação

     Versenkung - absorção

     Vorhanden - "à mão". Heidegger explorou mais o sentido de vorhanden ou Vorhandenheit

     Wesen - traduzimos por ser, natureza, essência e no sentido mais rico em EU E TU por ser presente

     Wirklich - atual

     Wirklichkeit - atualidade

     Wirklichen - atuar

     Werk - obra

     Weisung - ensinamento e também direção. É a tradução de Torah.


Notas de Rodapé:

1 Publicado em 1923.
2 Zwiesprache (Diálogo) 1930.
Die Frage an die Einzelnen (A questão ao indivíduo) 1936.
Ueber da Erzierische (Sobre a função educadora) 1926. Em Buber, M. Conferências sobre Educação, Heidelberg, Lambert Schneider, 1962.
Das Problem des Menschen (O Problema do homem) (Em hebraico 1943) Heidelberg, Lambert Schneider, 1961.
Todos os títulos reunidos em: Martin Buber, Werke Erste Band: Schriften zur Philosophie (M. Buber - Obras, Primeiro Volume: Escritos sobre Filosofia). München, Heidelberg, 1961.
3 Urdistanz und Beziehung (Distância original e relação) 1950.
Heidelberg, Lambert Schneider, 1960.
4 Elemente des Zwischenmensohlichen (Elementos do Interhumano) 1954.
Em M. Buber - Das Dialogische Prinzip (O Principio Dialógico) Heidelberg. Lambert-Schneider 1962. Obras. Primeiro Volume 1962.
5 Ver nota 2 acima.